Toda vez que o governo constrói uma escola, paga um médico da rede ou compra uma viatura, o dinheiro saiu de um lugar só: o orçamento do estado. Em 2026, esse bolso comum de Pernambuco chegou a cerca de R$ 63 bilhões, segundo a ALEPE. É desse número que sai quase tudo que o cidadão vê no dia a dia. E, ao contrário do que muita gente pensa, ele não é decidido só pela governadora. Passa pela Assembleia, pode ser mudado, e é fiscalizado depois. Vale a pena entender como.
O que é a LOA, em português claro
LOA é a sigla de Lei Orçamentária Anual. É a lei que diz quanto o estado espera arrecadar no ano e como vai gastar cada real. Nada de novo acontece por acaso na conta pública. Se um programa vai receber dinheiro, ele está escrito ali.
A LOA não vem sozinha. Ela faz parte de um trio. Primeiro existe o PPA, o Plano Plurianual, que traça as metas para quatro anos. Depois vem a LDO, a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que define as prioridades do ano seguinte. Por último, a LOA coloca os números em cima dessas prioridades.
Pense assim. O PPA é o mapa da viagem. A LDO escolhe a estrada. A LOA diz quanto combustível cabe no tanque.
Segundo a ALEPE, a LOA de 2026 previa em torno de R$ 60,7 bilhões para a administração direta e indireta do estado. Esse valor cobre desde o salário do professor até a manutenção de um hospital no interior.
Para onde vai o dinheiro
A pergunta que quase ninguém faz na hora de votar é simples: esse dinheiro todo cai onde?
As três maiores fatias, segundo a ALEPE, são as áreas que o cidadão mais cobra. A saúde levou cerca de R$ 13,6 bilhões. A educação, aproximadamente R$ 9,2 bilhões. A segurança pública ficou em torno de R$ 5 bilhões.
Só nessas três áreas está a maior parte da atenção do eleitor. Fila de cirurgia, vaga em creche, policiamento no bairro. Tudo isso tem um número de origem, e esse número está na LOA.
Quando um candidato promete melhorar a saúde, ele está, no fundo, falando de disputar como esses R$ 13,6 bilhões são divididos. Não é discurso solto. É orçamento.
Quem faz e quem aprova
Aqui entra a parte que costuma passar despercebida.
A montagem inicial do orçamento é tarefa do Executivo. O governo do estado, por meio da secretaria de planejamento, calcula a arrecadação e monta a proposta de gastos. É ele quem apresenta o projeto.
Mas o projeto não vira lei sozinho. Ele segue para a Assembleia Legislativa, a ALEPE, onde os deputados analisam, discutem e podem emendar. Emendar significa mudar o texto, remanejar recursos, incluir prioridades que os parlamentares defendem em nome das regiões que representam.
Ou seja, o orçamento é uma conversa entre dois poderes. Um propõe, o outro examina e ajusta. Nenhum dos dois decide sozinho. Esse é o desenho pensado justamente para que o dinheiro público não fique na mão de uma pessoa só.
O impasse de 2026, sem torcida
Em 2026, essa conversa travou. E o motivo é mais interessante do que parece.
O ponto da discórdia tinha nome técnico: margem de remanejamento. Explico. Depois que o orçamento é aprovado, o governo precisa de alguma liberdade para mover dinheiro de uma área para outra durante o ano, sem voltar à Assembleia a cada mudança. Essa liberdade é a margem de remanejamento. Ela existe porque a realidade muda no meio do caminho, e uma obra pode atrasar enquanto outra emergência aparece.
A pergunta é: quanto dessa liberdade é razoável? Se a margem é muito baixa, o governo fica engessado. Se é muito alta, o orçamento que a Assembleia aprovou pode acabar bem diferente na prática, porque grande parte pode ser remanejada depois.
Os deputados aprovaram baixar essa margem para 10%, segundo a ALEPE. A governadora vetou. O impasse durou cerca de quatro meses. No fim, em 23 de abril de 2026, chegou-se a um acordo com a margem em 20%, e o orçamento fechou em torno de R$ 63 bilhões. Um deputado resumiu que a disputa liberou aproximadamente R$ 2,5 bilhões a mais em investimentos, segundo a ALEPE.
Com isso, Pernambuco foi o último estado do país a aprovar sua LOA de 2026.
Note que não se trata de mocinho e vilão. Um lado queria mais controle sobre onde o dinheiro aprovado seria de fato gasto. O outro queria mais flexibilidade para executar. Os dois argumentos têm lógica. O cidadão precisa entender essa tensão porque é ela que decide se o orçamento que foi votado é o mesmo que será gasto.
Quem fiscaliza depois
Aprovar é metade do trabalho. A outra metade é conferir se o que foi prometido no papel virou realidade.
Essa fiscalização é da própria Assembleia, que acompanha a execução ao longo do ano. Ela não faz isso sozinha. Conta com o Tribunal de Contas do Estado, o órgão técnico que examina as contas, aponta irregularidades e emite parecer.
É por isso que a escolha de um deputado não termina na cerimônia de posse. Parte do mandato é olhar para trás e perguntar se o dinheiro chegou onde deveria chegar.
O que isso tem a ver com o seu voto
Orçamento parece assunto distante, coisa de técnico de gabinete. Não é. É a tradução, em reais, de tudo que o estado promete fazer por você.
Quando você escolhe um deputado, você está escolhendo alguém que vai sentar na mesa onde esses bilhões são divididos, emendados e fiscalizados. A pergunta certa não é só o que o candidato promete. É se ele entende de onde vem o dinheiro para cumprir a promessa.
Quem sabe ler o orçamento sabe cobrar. E cobrar bem começa por entender a conta.