← Todos os artigos
Fundamentos

O que um deputado estadual pode (e não pode) fazer por Pernambuco

Eduardo Inojosa Por Eduardo Inojosa·4 min de leitura

Toda campanha promete resolver a vida do eleitor. Poucas explicam o que o cargo realmente permite. E essa diferença importa, porque um deputado estadual que promete o que não pode entregar ou não entendeu a função ou está contando com o eleitor não conferir depois.

Então vale começar pelo começo: o que um deputado estadual faz, de fato, dentro das regras que a Constituição escreveu.

O estado tem poder limitado. Isso é de propósito.

O Brasil dividiu o poder entre União, estados e municípios. Cada um cuida de uma parte. A Constituição de 1988 reservou à União as decisões que precisam valer igual no país inteiro (direito civil, trabalho, trânsito, telecomunicações, as diretrizes da educação nacional) e deixou para os estados um campo próprio, quase sempre compartilhado.

Na prática, o deputado estadual atua com mais liberdade em três frentes onde a competência é sólida: defesa do consumidor, meio ambiente e fiscalização do dinheiro público. Em outras, o espaço é estreito, e é exatamente aí que muita promessa de palanque desmorona.

Três coisas que o deputado estadual NÃO pode fazer

Essa é a parte que quase ninguém conta, e a mais reveladora sobre como o poder funciona.

Não pode criar cargo, secretaria ou despesa de pessoal. Isso é atribuição do governador. Quando um deputado apresenta uma lei mandando o Executivo montar um programa novo com estrutura própria, o Supremo derruba por "vício de iniciativa". Já aconteceu dezenas de vezes.

Não pode legislar sobre o que é da União. Um exemplo que soa contraintuitivo: o estado não pode obrigar todos os municípios a adotarem um método específico de alfabetização. Metodologia de ensino entra nas "diretrizes da educação nacional", que são da União, e os sistemas municipais de ensino têm autonomia própria. Curiosidade que fecha o raciocínio: nem a própria União tornou um método obrigatório.

Não pode dar isenção de imposto sozinho. Um benefício de ICMS precisa de acordo entre os estados no CONFAZ. Estado que corta imposto por conta própria para atrair empresa acaba com a lei anulada. É a chamada "guerra fiscal", e ela quase sempre perde no tribunal.

Saber onde estão essas paredes não diminui o cargo. Faz o contrário: mostra quem estudou a função antes de disputá-la.

O que o deputado estadual PODE, e faz diferença de verdade

Dentro das regras, o campo de ação é concreto.

Defesa do consumidor é o terreno mais fértil. O Supremo já validou leis estaduais que fixam tempo máximo de espera em fila de banco, que obrigam operadora a informar na conta a velocidade real da internet, que proíbem multa de fidelidade abusiva. São leis que mudam o dia a dia e resistem ao controle do tribunal.

Meio ambiente é competência forte do estado. Pernambuco, por exemplo, usa o ICMS Socioambiental para repassar mais dinheiro aos municípios que cuidam de áreas protegidas e da coleta de lixo. Em 2025, quase todos os 184 municípios do estado receberam a parcela ligada a resíduos. Isso é política pública real, com efeito medível.

Fiscalizar é, talvez, o maior poder e o mais subestimado. O deputado pode abrir CPI, convocar secretário para explicar gasto, e enviar requerimento formal de informação, que o governo é obrigado a responder sob pena de crime de responsabilidade. Com o Tribunal de Contas do estado, acompanha para onde vai o orçamento. Em 2026, esse orçamento passa de R$ 60 bilhões. Cada real ali é fiscalizável.

Legislar é uma arte de precisão

Existe um caminho seguro para propor lei nova sem esbarrar nas paredes. Quando a matéria é compartilhada entre União e estado, a regra é suplementar a norma federal, nunca contrariá-la, e não mexer em estrutura de secretaria nem em folha de pessoal. O Supremo já deixou claro que uma lei assim se sustenta. Foi o caso, por exemplo, de leis estaduais que exigiram câmeras de monitoramento em escolas: criam despesa, mas não inventam cargo nem órgão, e por isso valem.

É um trabalho de quem lê a regra antes de escrever a proposta. Menos vistoso que uma promessa grande no palanque, e muito mais útil.

Por que isso importa para o seu voto

Quando alguém pede seu voto para deputado estadual, vale a pena fazer duas perguntas simples. A primeira: o que essa pessoa promete cabe dentro do que o cargo pode? A segunda: ela sabe a diferença entre fazer barulho e fazer lei que fica de pé?

Um mandato bem usado defende o consumidor, protege o meio ambiente, fiscaliza cada linha do orçamento e propõe leis desenhadas para sobreviver ao tribunal. Não é o mandato mais barulhento. É o que entrega.

E entregar, no fim, é a única coisa que conta.

Acompanhe no Instagram@eduardoinojosape · bastidores, posições e o dia a dia do mandato
Seguir

Vamos conversar?

Se este texto fez sentido pra você, me manda uma mensagem. Leio e respondo.

Falar no WhatsApp
Leia também